NOTÍCIA
...

A TORCEDORA INDEFECTÍVEL

03 de abril de 2018

Das coisas que sempre reparo no Batistão em dias de jogos do Sergipe – além do jogo, claro – é numa certa moça. Uma galeguinha, olhos castanhos, de comportamento irrequieto. Vez ou outra ela aparece com um boné preto – um dia ainda lhe dou um vermelho. Mas sempre com uma camisa vermelha, daquelas que têm uma âncora com uma bola no meio, dois remos cruzados, uma constelação de seis estrelas e um trio de letras que muito fala sobre mim. Ela é um barato. Acaba que quando subo para as arquibancadas e sigo rumo ao Setor 03 – a tal da superstição – me esbarro nos olhos dela. Noto também que sempre está acompanhada de um rapaz. Namorado, irmão ou amigo. (Espero que esta última opção).

Eu a vejo e começa a tocar na radiola da minha cabeça aquela música do Skank: Garota nacional. Aquela coisa incrível e indefectível que só a torcedora rubra tem, sabe? Pois é, desse jeito. No último sábado, 31, naquele memorável jogo contra o Lagarto ela se fez presente. A verdade é que ela não perde um jogo. Girl power, a garota. Por uma dessas coincidências curiosas que só o universo nos proporciona, ela sentou no Setor 03. O Setor 03 tem uma mística. Não sei bem como explicar, mas deve ter algo a ver com numerologia, astrologia ou pulo de gia. Ela ficou um pouco abaixo de onde eu e meu velho estávamos. Ficou pertinho mesmo.

Ela não ficava quieta. Irrequieta. Agitada. Puxava os cabelos. Levantava nas jogadas de ataque do Vermelhinho e cruzava as mãos, como em prece, quando o Lagarto ameaçava. Se não me turva a memória – e eu não posso dar certeza que não –, trocávamos olhares de desespero e apreensão. Ela cantou. Ela vibrou. Ela pulou. (Suspeito que roeu as unhas e lhe deu taquicardia – vi o irmão-namorado-amigo preocupado, como que pedindo para se acalmar).

Quando Brendon soltou o canhão e estufou as redes, a massa ficou polvorosa. Eu e ela nunca pulamos tanto. Pulei tanto que acabei parando ao lado dela e lhe dei uma abraço. Ela estava tremendo de alegria – eu também! Carimbamos a vaga na final, eu lhe disse. Estamos na final, cara!, ela não se conteve. E outro abraço e muito prazer. Queria dizer que a conhecia de outros jogos e tal, mas estávamos todos muito loucos e emocionados. De perto, vi que o castanho dos olhos dela era bem intenso. “Quem dera minha cara fosse de sucupira!”

Voltei para casa ouvindo Skank. Aliás, recomendo ler esta crônica ouvindo a banda: aquele disco ao vivo em Ouro Preto/MG. Eita dia danado! Só esqueci de perguntar o nome dela. Mas temos a final ainda.

Gustavo Tenório