NOTÍCIA
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01 de abril de 2018

Como começar esta crônica, meu Deus!? Minhas mãos ainda tremem e minha visão ainda se faz turva. Juro. Provavelmente não sou o único a sentir essa “zigzera” neste exato momento. Que tarde e que começo de noite! Meus caros colorados, acho que desde aquela inesquecível final em 2013 que o meu coração não sai pela boca! Deus do céu! Que dia, bicho! Nem Sófocles, nem Shakespeare, nem Nelson Rodrigues pensariam nessa trama! Que loucura!

O dia amanheceu desconfiado, indeciso se chovia ou se liberava o céu limpo. Deu a segunda opção. Vesti minha camisa do Gipão e fui almoçar na Hermes Fontes com o meu velho. Convenci-o a não ir à roça e a ficarmos em Aracaju, para irmos ao Batistão, claro. “Tem certeza, Guga?”, perguntou-me com um certo ar de desânimo. O dia não estava dos mais animados na cidade.

Resolvi abdicar de todos os meus rituais de jogo: deixei em casa o chinelo e o boné do Sergipe; fui com a esquecida camisa da temporada 2010, uma bermuda jeans qualquer e com o primeiro chinelo que encontrei no armário: preto. Seguimos ao Batistão por volta das 16:15 com um amigo torcedor do Vitória. Seria um presságio? Precisávamos de uma vitória e de um empate ou vitória do Itabaiana na Serra. Talvez eu realmente seja supersticioso... ou não. Dizem que sou mesmo. Devo ser, por mais que eu tente negar. Chegamos, enfim, ao palco.

Comprei os ingressos na bilheteria do canto esquerdo. Entrei pelo portão esquerdo do lado... esquerdo. Subi pela mesma escada de acesso para as arquibancadas – mas isso é uma tradição familiar, já que sempre compramos cerveja e refri com o galego de Itabaiana. É sério! Acho que essa não deve ir para a conta. Aliás, não comprei cerveja dessa vez com ele – só no final. Acho que minhas mandigas se quebraram aí... Sentamos no mesmo Setor 03.

 O Gipão começou a partida a todo vapor. Não demorou muito e Nino Guerreiro marcou o primeiro tento para o Vermelhinho. Logo em seguida uma euforia repentina, sem porquê. Mentira: o Itabaiana havia feito um gol no Mendonção! Jesus do céu! Estávamos nos classificando. Tudo estava conspirando a nosso favor! No entanto, aconteceu que o gol foi anulado na Serra. Bom, o empate lá e a vitória nossa ainda nos colocavam na final. Meus amigos, nunca um primeiro tempo demorou tanto para acabar. Mas acabou, com uma vantagem de 1x0 para a equipe rubra. No agreste, o placar mantinha-se inalterado.

O segundo tempo foi um deus-nos-acuda. Os lagartenses pressionaram demais. O time do Sergipe parecia estar dormindo ou cansado, não sei dizer. Fiquei apreensivo. Quebrei algumas unhas que me restavam. Puxei meu cabelos. Mas o lagarto fez um gol. Ponte que o partiu! Gelei. Fiquei consternado com a bola encobrindo o nosso arqueiro. Não era possível! O Lagarto havia tido oportunidades mais contundentes... Foi real. E ter de aguentar a torcida visitante cantar mais alto foi dose.

Frustração. Ira. Incredulidade. Tudo isso estampado na face dos torcedores. Ouvi todas as críticas possíveis deles. Meu glossário de palavrões se expandiu naquele momento com a colaboração rica da galera – eu devo ter inventado um também, mas não anotei. Que banho de água fria! Tive a impressão que minha pressão havia caído. Senti-me gelado e ligeiramente tonto. Desci das arquibancadas e fui pegar uma pitada de sal com o pipoqueiro. No rádio da moça do churrasquinho-de-gato, escutei um pouco do jogo de Itabaiana. A equipe da casa parecia pressionar o time azul. “Oh, céus! Ai de mim!” Tive meu momento de drama shakespeariano junto à moça do espetinho. Eu Hamlet e ela Ofélia. Ela preocupada com meu semblante provavelmente pálido. Eu apenas olhava a churrasqueira trepidante e para um vazio impreciso... Chega de cena! Já havia perdido muito tempo ali. Precisava voltar ao meu assento para sofrer mais um bocado.

O que falar dos últimos minutos!? Jesus, Maria, José! O Sergipe foi com tudo para o ataque. As substituições não me pareceram as mais pertinentes. Eu não conseguia ficar sentado. Passei a dar ordens e instruções ao time do alto do Setor 03 – não sei se me ouviram. Senti-me um maestro ensandecido diante de uma orquestra caótica executando Mahler ou o Olodum. Eis que a placa dos acréscimos foi erguida: 3 minutos. Ponte que o partiu! Três minutos do tamanho da eternidade. O time do Lagarto danou a fazer “cera”. Cada jogador de branco caído no chão era uma explosão de ira e revolta das arquibancadas. Ora, onde já se viu! Contestamos tanto, nós e os jogadores, que o juiz alagoano acrescentou mais um minuto.

O minuto que não coube na eternidade! Se o Batistão tivesse uma aparelhagem de som que fizesse a trilha sonora do espetáculo, sem dúvida caberia o velho clichê do som do coração pulsando. O bate-rebate na área que não deu em nada; uma bola lançada no peito do zagueiro adversário. Maldita bola que não entrava! Até que Brendon foi ao ataque. O camisa 5 tocou para a ala. A bola acabou sendo quase perdida para os adversários. Mas acabou voltando para os seus pés. Ele chutou uma primeira vez, mas a bola explodiu no zagueiro do Lagarto. Milagrosamente a bola voltou para os seus pés mais uma vez. Ele cortou um defensor adversário e soltou o pé. Aos 48 minutos e 25 segundos começou a trajetória da bola. E estufou as redes dois segundos depois. Ai, meu São Isaac Newton!

A arquibancada foi ao delírio! Pulos e gritos e abraços e choro e tudo. Foi uma explosão! Que jogo, meus amigos! Que jogo! Emoção à flor da pele. O jogo em Itabaiana acabou empatado. Estávamos na final! Na final! Seria um pecado se não estivéssemos. Só o Vermelhinho para nos proporcionar toda essa epopeia de êxtase. Mais um dia de prélio para o panteão das grandes partidas inesquecíveis!

Eu prometo, a todos os santos, orixás, entidades e a Basquiat, vestir vermelho sempre – tudo bem que já visto, mas agora será um ritual com alguma liturgia. Estamos na final, bicho! Vamos pintar a Serra de vermelho!

 Gustavo Tenório